Conexão entre Diesel ‘Verde’ dos EUA e Desmatamento na Amazônia

Atualizado em 23/04/2026
Investigação Liga Diesel ‘Verde’ dos EUA a Desmatamento no Brasil
A produção de biocombustíveis nos Estados Unidos, especialmente o diesel ‘verde’ e o SAF (combustível sustentável de aviação), está no centro das atenções devido a uma conexão polêmica com práticas ilegais de desmatamento na Amazônia. A Diamond Green Diesel (DGD), uma das principais fabricantes desse tipo de combustível, foi identificada como compradora de sebo bovino de um fornecedor ligado à destruição ambiental em Rondônia, Brasil.
Conexão entre Sebo Bovino e Desmatamento na Amazônia
Em 2022, uma investigação revelou que a DGD adquiriu sebo bovino, essencial para a produção de seu combustível sustentável, da empresa Pacífico. Esta, por sua vez, obtinha suas matérias-primas do frigorífico Distriboi, condenado por adquirir gado de áreas desmatadas na Reserva Extrativista Jaci Paraná entre agosto de 2020 e janeiro de 2022. A instalação de pastagens ilegais contribuiu para a devastação de uma área florestal comparável ao tamanho da cidade de São Paulo.
Exportações de Biocombustíveis Americanos para a Europa
Entre 2023 e 2025, a Pacífico enviou quase 15 mil toneladas de sebo bovino para a DGD. Durante este período, a DGD exportou grandes volumes de biodiesel e SAF para o continente europeu: 176 mil toneladas para o Reino Unido entre 2024 e 2025, e 261 mil toneladas para países como Holanda, Noruega e Bélgica em 2025. Esta exportação massiva ocorre em meio a verificações que ligam o sebo utilizado a práticas ecologicamente prejudiciais no Brasil.
Controvérsias sobre a Sustentabilidade do Sebo Animal
Investigadores descobriram que o sebo fornecido à DGD também foi adquirido de graxarias associadas a frigoríficos que utilizam gado de áreas desmatadas ilegalmente. A empresa Darling Ingredients, coproprietária da DGD, afirmou não receber sebo do frigorífico condenado, mas não esclareceu se outros locais de processamento da Distriboi foram utilizados como fonte de material.
Impactos Ambientais e Reações Internacionais
A Reserva Jaci-Paraná foi criada para apoiar formas sustentáveis de vida entre comunidades tradicionais, como seringueiros e coletores de castanha. No entanto, quase 800 fazendas ilegais de gado surgiram, forçando a Procuradoria de Rondônia a mover 52 ações civis pedindo indenizações superiores a R$ 538 milhões. Esses danos ambientais incluem a devastação de 151 mil hectares de floresta.
Líderes ambientais como Neidinha Suruí, que receberam prêmios por seus esforços de conservação, expressam sua indignação, descrevendo a cadeia de fornecimento de biocombustível como um “crime ambiental disfarçado de sustentabilidade”. Organizações como a Transport & Environment destacam a vulnerabilidade do sebo e óleos usados a práticas fraudulentas na produção de biocombustíveis.
Selo de Sustentabilidade: Controvérsias em sua Aplicação
Embora o diesel ‘verde’ da DGD seja certificado pela ISCC, que atesta práticas sustentáveis, a classificação do sebo bovino como resíduo faz com que a certificação não comece na fazenda, mas nas plantas de processamento, como a Pacífico. Especialistas destacados na avaliação dos impactos ambientais dos biocombustíveis afirmam que, se a origem do sebo for áreas desmatadas, isso questiona a sustentabilidade do combustível produzido.
Heron Martins, do Instituto Dados, e a doutoranda Haniyeh Hajatnia, da Universidade de Bath, realçam os problemas de localização das unidades de produção de sebo, que estão no foco do arco de desmatamento, desafiando o rigor das avaliações de sustentabilidade.
Este artigo foi produzido com o apoio do Journalismfund Europe.
Planta industrial Diamond Green Diesel, Port Arthur (Texas); empresa compra sebo bovino Brasil (Foto: REUTERS/Adrees Latif)
Fonte: Repórter Brasil