Indícios de Contaminação em Rios na Terra Indígena Waimiri Atroari

Atualizado em 23/04/2026
Possível Contaminação de Rios na Terra Indígena Waimiri Atroari
Recentes indícios de poluição nas águas da Terra Indígena Waimiri Atroari, localizada nas proximidades de Presidente Figueiredo (AM), onde opera uma das maiores minas a céu aberto do Brasil, geraram preocupações entre os habitantes da região. Esta situação se tornou evidente após a ocorrência de chuvas intensas, que aparentemente fizeram com que resíduos mineiros escorressem para cursos d’água, resultando em manchas lamacentas nos igarapés da área indígena.
Relatos e Investigações Preocupantes
Durante uma fiscalização ambiental conjunta com a Funai realizada recentemente, os membros da comunidade Waimiri Atroari detectaram um “odor forte” emanando dos igarapés Tiaraju e Alalaú. Esses sinais de poluição não são novos; em ocasiões anteriores, similares alterações na qualidade das águas foram observadas. As inspeções ambientais não apenas confirmaram o aumento considerável da turbidez das águas, mas também relataram sintomas físicos nos envolvidos, como dificuldades respiratórias e irritação na pele.
Essas preocupações foram oficialmente comunicadas ao MPF-AM através de um documento enviado em 8 de abril, solicitando ações para investigar se a mineradora Taboca é de fato responsável pela contaminação. A documentação foi anexada ao inquérito que está em andamento, com o objetivo de apurar a extensão da contaminação nas áreas indígenas afetadas.
Mineração Taboca e o Impacto Ambiental
A Mineração Taboca, que há mais de quatro décadas é líder na produção de estanho refinado no Brasil, fornecendo inclusive para gigantes industriais como Toyota e Tesla, negou quaisquer alegações de descargas de poluentes relacionadas à sua operação. A empresa atribuiu a origem dos fenômenos notados ao elevado volume de chuvas registrado no início de abril. Segundo a Taboca, os níveis de qualidade da água, inclusive referentes à sua turbidez, permanecem dentro dos padrões legais estabelecidos.
No entanto, a mineradora também afirmou ter realizado inspeções na área após relatórios de poluição detectados em fevereiro. Os resultados, conforme declarado, foram repassados aos líderes indígenas, sem que anomalias fossem detectadas nas operações. A empresa ainda ressaltou lacunas nos métodos de análise química utilizados, e afirmou que os mesmos necessitam de revisão para uma conclusão precisa.
Preocupações dos Indígenas e o Futuro da Terra Waimiri Atroari
Sanapyty Atroari, durante uma expedição de averiguação recente, lamentou o estado do igarapé Tiaraju, descrevendo-o como poluído e apelou para melhorias. Anciãos locais, como Akynamy Atroari, manifestaram grande preocupação com a possibilidade de que o esgotamento dos recursos pesqueiros, um dos principais alimentos da comunidade, possa ter um impacto devastador sobre seu povo.
Por décadas, as denúncias sobre deterioração ambiental têm sido contínuas. A instalação da mina de Pitinga nos anos 80, após decretos presidenciais reduzirem as terras indígenas, é um marco doloroso na memória coletiva dos Waimiri Atroari. Incidentes passados, como o rompimento de barragens em 1987 que contaminou os rios, ainda repercutem no discurso da comunidade sobre a sua relação com a mineradora.
Hoje, a Taboca, sob controle de uma estatal chinesa desde 2024, enfrenta o desafio de operar em uma região onde a busca por minerais críticos está em ascensão, com dezenas de solicitações de exploração em curso. Os líderes indígenas destacam a importância de garantir a proteção ambiental e a segurança alimentar, enquanto a terra continua cercada por pressões do desenvolvimento industrial.
Fernando Martinho/ Repórter Brasil
Fonte: Repórter Brasil