As Inspirações Femininas do Novo Projeto de Rosalía
No início de novembro, um novo projeto musical da aclamada cantora catalã Rosalía foi disponibilizado em todas as plataformas de streaming, intitulado Lux, que significa “luz” no idioma latim. Este projeto foi destacado com uma avaliação máxima de cinco estrelas pela Rolling Stone Brasil e mergulha profundamente na exploração do divino e do místico feminino através de suas letras, estética e sonoridade. Rosalía utilizou sua música para revelar uma conexão intrínseca com a espiritualidade e a essência feminina.
Para construir a narrativa deste álbum, a artista colaborou com renomadas entidades musicais, como a icônica cantora islandesa Björk, que participou na faixa “Berghain”, e a respeitada Orquestra Sinfônica de Londres, sob a regência de Daniel Bjarnason, conferindo um ar sacro às composições. Além dos colaboradores musicais, Rosalía passou um extenso período de três anos investigando figuras femininas de grande importância histórica e espiritual ao redor do mundo, que serviram como suas principais inspirações.
Santa Rosa de Lima: A Santidade e a Música
Nascida em 1586 em Lima, no Peru, Santa Rosa de Lima foi a décima de treze filhos em uma família nobre. Segundo o perfil publicado no site do Vaticano, seu nome foi dado por sua ama de origem indígena devido à sua beleza extraordinária. Seu exemplo de vida foi Santa Catarina de Sena, e ela se tornou a primeira mulher a ser canonizada nas Américas, sendo uma figura de devoção e modelo para muitos.
Durante uma coletiva de imprensa no México, Rosalía declarou que a padroeira do Peru e da América Latina foi crucial em sua inspiração para o álbum. No catolicismo, Santa Rosa de Lima é venerada como protetora dos jardineiros e floristas, além de oferecer auxílio em situações de feridas ou conflitos familiares. A música “Reliquia” no álbum faz uma referência direta à santa, já que seus restos mortais foram espalhados como relíquias sagradas. Ela também é conhecida por praticar penitências rigorosas e cortar seus cabelos como demonstração de fé, algo que Rosalía evoca na letra: “Y en la ciudad de cristal/ Fue que me trasquilé/ Pero el pelo vuelve a crecer/La pureza también/La pureza está en mí”.
Inspirações Místicas Estendidas
Outra figura inspiradora para o álbum foi Santa Clara de Assis, nascida em 1194 na Itália, de família nobre. Ela se destacou por fugir de casa com apenas 18 anos para seguir São Francisco e dedicar-se à pobreza radical, fundando a Ordem das Clarissas. Esta ordem religiosa, também conhecida como “damas pobres”, rejeitava a posse de bens materiais, focando em oração e contemplação. A música operística “Mio Cristo Piange Diamanti” do projeto de Rosalía explora a conexão espiritual entre Santa Clara e São Francisco de Assis.
O álbum também se inspira em Ryōnen Gensō, uma monja japonesa do século XVII conhecida por sua beleza e inteligência. Quando rejeitada por um mestre zen por sua aparência que poderia distrair os monges, ela desfigurou seu rosto para provar sua dedicação religiosa. A canção “Porcelana” é uma homenagem a essa história, com Rosalía cantando em japonês sobre sacrifício e transformação.
Legado Espiritual e Novas Interpretações
A mística Rabia Al Adawiyyaa, nascida em 713 D.C. no Iraque, foi a primeira santa sufi do Islamismo. Ela pregava o amor divino puro, não baseado em medo ou recompensa. A faixa “La Yugular” do álbum busca capturar essa essência espiritual transcendente, combinando tradições sufistas com as raízes andaluzas do flamenco.
Anandamayi Ma, uma santa hindu do século XX, também serve de inspiração para Rosalía. Conhecida por sua abordagem única sobre a morte, seus ensinamentos influenciam a faixa “Magnolias”, onde Rosalía canta sobre seu funeral de maneira celebratória, pedindo flores e alegria em vez de luto.
No podcast Popcast do The New York Times, Rosalía discute suas inspirações e menciona Miriam, uma profetisa do judaísmo. Conhecida por sua sabedoria e liderança, Miriam está presente na música “Novia Robot”, onde Rosalía canta em hebraico e reflete sobre rebelião e autodescobrimento.
Por fim, Sun Bu’er, uma taoísta do século XII, conhecida por sacrificar sua beleza em busca da sabedoria, também é referenciada na música “Novia Robot”. Estas histórias notáveis moldam Lux como um álbum profundamente enraizado na força espiritual e feminina.
Rosalia (Foto: Noah Dillon)
Fonte: Rolling Stone Brasil


